“Tempo de pedreiro”. Uma crítica ao Porta dos Fundos

O canal Porta dos Fundos lançou, em janeiro de 2018, um vídeo brincando com o “Tempo de Pedreiro”, onde o personagem principal costuma aumentar o prazo das suas tarefas, justificando que o tempo de pedreiro está mais relativo ao tempo do “brasileiro médio” do que ao tempo do relógio.

O vídeo é bem humorado e entendemos se tratar de uma brincadeira, mas queremos pegar esse gancho para falar de uma coisa real: do verdadeiro tempo de pedreiro, aquele que envolve uma série diária de mudanças na rotina para um trabalho final de qualidade.

Afinal, nós sabemos, melhor do que ninguém, que existem profissionais que fazem o tempo de pedreiro do Porta dos Fundos parecer real. Mas a verdade é que a maioria dos profissionais vai na contramão disso, focando cada vez mais na entrega rápida de resultados e na construção da confiança do cliente.

O verdadeiro tempo de pedreiro está ligado aos detalhes

Quando um cliente solicita um orçamento de obra, ele pede uma visão geral a um profissional que ainda não colocou, efetivamente, a mão na massa. É justamente ao começar a obra que o pedreiro vai entender, verdadeiramente, qual é a profundidade do seu trabalho.

A partir daí, o prazo – ou o tempo de pedreiro do vídeo – vai depender do quanto o profissional deve lidar com milhares de detalhes que, em muitas ocasiões, seu cliente nem imagina que existe. Às vezes, o problema encontrado no decorrer de uma tarefa é tão preocupante que tudo precisa, sim, ser parado e reavaliado para que a qualidade máxima do serviço não seja comprometida.

Todo mundo que trabalha sabe que, diante de um imprevisto, o trabalho vai atrasar um pouquinho, e os prazos precisarão ser reajustados. Nesse caso, o tempo de pedreiro funciona também em uma agência de publicidade que ficou sem internet, uma central de atendimento telefônico sem energia elétrica, uma lanchonete com a fritadeira quebrada…

Tá vendo? Por mais que em todas as profissões exista gente que enrola e não faz seu serviço direito, como o vídeo do Porta dos Fundos generaliza para a área de construção civil, nem sempre o que o cliente vê como “tempo de pedreiro” é fruto da culpa do profissional.

Bons profissionais não enrolam

Não há razão nenhuma para acreditar que o tempo de pedreiro da vida real seja no ritmo que o Porta dos Fundos ilustra, mesmo porque pedreiros experientes e bons não cometem erros, como tentar ludibriar o cliente.

Além disso, ao iniciar a obra e ver as implicações reais do seu trabalho dentro dela, o bom profissional vai avisar seu cliente que talvez tenha se equivocado no prazo e que, para concluir a tarefa, precise de um pouco mais de tempo.

Afinal, é assim que bons profissionais de qualquer mercado fazem: eles se comprometem realmente com seu ofício e não deixam seus clientes no escuro sobre prazo de conclusão ou resultados esperados de qualquer coisa que façam.

Resumindo: não dá para usar o “tempo de pedreiro” do Porta dos Fundos para generalizar toda uma profissão – mesmo porque, como já disse o escritor Nelson Rodrigues, a unanimidade, ou seja, a generalização, é burra. É tentar colocar todo mundo em uma só caixa quando, na verdade, existem muitos perfis diferentes para se levar em consideração.

No fim das contas, o tempo de pedreiro mais verdadeiro que existe é aquele que o profissional utiliza para realizar seu trabalho com alegria, técnica, bons materiais, inovação, disposição e compromisso com a entrega de algo que, nas suas mãos, pode se tornar a realização do sonho de uma pessoa.

Quem dera o tempo de pedreiro assim fosse aplicado para todas as profissões, né, Porta dos Fundos? 😉

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