Por que o trabalho de pedreiro é tão desvalorizado no Brasil?

Circula pela internet um vídeo do ator Pedro Cardoso comentando como o brasileiro define suas prioridades: pode pagar milhões de reais em um apartamento gigantesco mas, se uma pessoa pede cinco mil reais para pintá-lo, o cliente acha que o pintor está explorando.

Esse vídeo mostra uma realidade que muito trabalhador da construção civil vive em sua rotina.

Os argumentos são sempre os mesmos: “o preço está alto!”; “Não vale tudo isso!”; “Como pode você querer cinco mil reais em uma pintura/reforma de apartamento? Você não é engenheiro”.

Isso nos faz refletir: por que será que a profissão de pedreiro – e pintor, e encanador, e batedor de laje, etc. – é tão desvalorizada no mercado brasileiro?


 

Trabalho braçal x intelecual

A primeira conclusão a que chegamos, e que o vídeo do Pedro Cardoso mostra muito bem, é que a razão para a desvalorização dos pedreiros é o fato de eles fazerem um trabalho em cima de algo que “já está pronto”, então as pessoas prefeririam comprar bens para sua casa, como itens de decoração, mas são incapazes de valorizar um trabalho técnico.

Além disso, e talvez até mais importante para essa reflexão, é o pedreiro realizar um trabalho braçal, e não intelectual.

As pessoas tendem a achar que todo trabalho “de doutor” vale mais, porque os doutores estudaram anos para exercer uma profissão… é claro que essas pessoas merecem ganhar muito dinheiro, mas isso não exclui dos pedreiros o mesmo direito.

Mesmo porque, se você for parar pra pensar, um doutor não sabe – ou não quer – assentar um tijolo ou fazer uma argamassa de qualidade. Ou você já viu algum engenheiro indo pra obra fazer exatamente isso?

Assim como você também nunca deve ter visto um doutor em saúde pública recolhendo o lixo nas ruas pela manhã e um doutor em medicina passando de madrugada nos leitos do hospital para dar remédio aos pacientes.

Quando o cliente tem um problema em casa, a menos que ele seja estrutural, ele não vai chamar o engenheiro para executar as tarefas. Se é preciso reformar um banheiro, o doutor pode até fazer os cálculos, mas quem vai colocar a mão na massa e entregar o banheiro dos sonhos do cliente, funcional e bonito, não é o doutor. É o trabalhador braçal.

O ideal é que todo pedreiro possa perseguir seus sonhos e, se o sonho for fazer uma faculdade, tomara que consiga. Mas a escolaridade não deveria fundamentar o valor do serviço de um profissional que não precisa de mestrado para mexer em cimento, porque ela, simplesmente, não é necessária. A experiência prática de um pedreiro é algo muito mais importante para o cliente do que milhares de outras coisas que ele poderia aprender em um livro e que não seria usado na obra em questão.

A verdade nua e crua é essa.

E mais verdade do que isso é que quem tem um diploma pendurado na sala provavelmente não vai querer trabalhar o dia todo com períodos curtos de descanso, comendo marmita fria e dando o máximo de si, faça chuva ou faça sol, para entregar as casas dos sonhos das pessoas…

A obra é feita de profissões complementares

Tá certo que, sem um bom doutor engenheiro, um bom arquiteto, um pedreiro não vai fazer milagres, não vai erguer um condomínio inteiro da sua cabeça só porque ele sabe colocar um tijolo em cima do outro.

E é isso que a sociedade precisa entender, de uma vez por todas: em um canteiro de obras, todas as profissões são complementares. Não existe pedreiro sem engenheiro e não existe engenheiro sem pedreiro. A sabedoria de um deve ser somada com outro para que o resultado supere o esperado.

Assim, fica mais fácil aceitar que, por mais que o engenheiro ganhe mais que um pedreiro, isso não tira do pedreiro o direito – e, principalmente, o merecimento – de ganhar sua vida nas reformas, pequenas ou grandes, e nas construções.

Pedreiro também tem conhecimento de carreira que nenhum outro profissional da construção civil poderia ter: os melhores materiais, a durabilidade deles, o manuseio de algumas ferramentas e, principalmente, o comprometimento em saber que qualquer construção tem a responsabilidade de ser duradoura e segura.

Se um pedreiro despreparado fosse para um canteiro de obras, os resultados poderiam ser catastróficos a famílias inteiras! E se os prédios não caem um por dia no Brasil é porque, ao lado de engenheiros magníficos, temos uma legião de pedreiros extremamente talentosos trabalhando pelo sucesso de cada empreendimento!

Por isso, fica aqui o recado para pedreiros e clientes:

Senhor cliente, tente valorizar mais o trabalho do pedreiro, do pintor, do reformador que você contrata, pois está nas mãos, na experiência e na sabedoria desse profissional te entregar aquilo que você sempre sonhou. Assim como você também gosta de ter seu trabalho reconhecido, e aplaude o trabalho do engenheiro e do arquiteto, abra sua mente e coração para o trabalho do seu pedreiro.

Faça dele seu amigo e você terá sempre um profissional capacitado, e de qualidade, para te atender e prover segurança habitacional para você e sua família – além de qualidade de vida para morar em um lugar que tem a carinha que você sempre quis.

Senhor pedreiro, não recue no seu direito de cobrar o preço justo pelo trabalho proposto! E, para ajudar ainda mais sua própria causa, utilize materiais de qualidade, porte-se bem no contato com o cliente, cumpra prazos e entregue produtos e serviços de qualidade.

Dessa forma você terá uma clientela que reconhece seu trabalho e seu esforço e não vai torcer o nariz para seus próximos orçamentos.

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